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Beijos

 Luís Fernando Veríssimo
Esforcava-se para ser um homem moderno mas tinha alguma dificuldade com o protocolo. Não sabia quem beijava. Quando via aproximar-se uma conhecida do casal, perguntava para a mulher, apreensivo, com o canto da boca: 
- Essa eu beijo? 
Nunca se lembrava. Para simplificar, passou a beijar todas. Conhecidas ou não. Quando lhe apresentavam uma mulher, em vez de apertar sua mão, beijava-a. Dois beijos, um em cada face.
— Muito prazer.
Outro problema era a quantidade de beijos. Já tinha dominado os dois beijos, estava confortável com dois beijos, quando a moda passou a ser três. A mulher, uma vez,  observou:
— Não sabia que você era tão amigo da Leonor.
— Beijo todas.
— Mas quatro beijos?
— Me passei na conta.
Era difícil. Às vezes ele partia para o terceiro beijo e a beijada não esperava. Ou então esperava e ele não dava, e quando ele voltava ela já recuara. Não havia nada mais constrangedor do que oferecer a face para o terceiro beijo (ou o quarto, quando a moda passou a ser esta) e o beijo não vir. Ficar, por assim dizer, com a cara no ar enquanto a mulher se afastava, rezando para que ninguém tivesse notado. O problema da vida, pensava ele, é que a vida não é coreografada.
Aí os homens começaram a se beijar também. Tudo bem. Seu lema passou a ser: se me beijarem, eu beijo. Mas não tomava a iniciativa. Quando chegavam numa reunião, fazia um rápido levantamento dos presentes. Essa eu beijo duas vezes, essa três, esse me beija, esse não me beija, aquele já está me beijando quatro vezes…
Na outra noite, numa recepção de casamento, a mulher comentou:
— Você enlouqueceu?
— Me descontrolei, pronto.
— Você beijou todo o mundo.
— Todo o mundo estava beijando todo o mundo.
— Mas beijo na boca?
— Foi só um.
— Mas logo o padre?!
Tomado por uma espécie de frenesi, depois de beijar uma fileira de conhecidos e desconhecidos, ele dobrara o padre pela cintura e o beijara longamente, como no cinema antigo.
Faraco, Carlos Emílio. Linguagem nova. São Paulo: Ática, 1995

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