quarta-feira, 22 de abril de 2009

Oração subordinada substantiva - tira

Leia a tira a seguir:




1. Que período composto por subordinação há no texto do primeiro quadrinho? Copie-o.

2. Explique por que esse período é composto por subordinação.

3. Por que a palavra que não é um pronome nesse período?

4. Por que a oração subordinada é dependente da primeira oração?

Rafael Tobias de Aguiar - biografia


Felicidade clandestina - Clarice Lispector


         Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
            Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
            Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
            Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
            Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
            Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
            No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
            Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

            E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
            Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
            Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
            E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
            Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
            Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
            Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
            Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. In: Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Campo de Várzea - Garcia de Paiva

          O campo ficava perto de um loteamento, mostrava acentuado desnível e suas traves eram tortas: uma delas — mourão retirado de um andaime da construção próxima — tinha dois metros e meio de altura, e a mais baixa, no lado oposto, noventa centímetros. Alguns meninos acompanhavam o jogo.  Os times haviam sido formados ao acaso, e um deles ficou com dez elementos, o outro com nove.  Apenas três jogadores usavam chuteiras, as mesmas com que trabalhavam de pedreiro na construção, e havia dois descalços. Corriam atrás da bola com obstinação, defendiam encarniçadamente, num e noutro extremo, o espaço entre as traves, e atacavam também. Eram homens que se haviam reunido para correr atrás de uma bola e divertir-se, e somente dois ou três se conheciam, o jogo transcorria silencioso, mas de vez em quando rebentava um palavrão ou alguma risada solta nas furadas e nos lances mais acirrados. Os gols começaram a ser feitos e não houve registro deles. Certo jogador de defesa, um tipo vermelho que jogava de sapatos, fracassava em suas tentativas de fazer também o seu gol. Carregava a bola através do campo, defendia-a com unhas e dentes, mas ela acabava sempre por escapar ao seu controle. Numa ocasião favorável, quando tinha as traves escancaradas à sua frente, foi aterrado por um mulato descalço, numa jogada viril, e revidou.  Houve um começo de briga, os outros apartaram, mas o vermelho passou a xingar a mãe do mulato descalço, que evitava novo confronto.

Garcia de Paiva. Os agricultores arrancam paralelepípedos. São Paulo: Ática, 1977.

domingo, 12 de abril de 2009

As palavras - Arilton Bronze

As palavras são maleáveis
O contexto pode provar
Se a pessoa não for sensível
Jamais perceberá.

Elas mudam constantemente
Cada um pode perceber
Depende do significado
Que você quer conhecer.

Sensível pode ser maldoso
Depende da brincadeira
Cirurgia conhecimento
Ciência cabe na algibeira.

Tragédia - experiência
Até difícil pode parecer
Faça a experiência
Que comida balão pode ser.

Termino a cirurgia
Mais medroso que antes
O balão está gostoso
Pelos menos nesse instante.



É bom

É bom!
Poder distrair meus olhos,
Poder deixá-los felizes.

É bom!
Avistar o Oceano gentil,
Quando ele despertar
Na alvorada do dia...
É bom!
Olhar os encantos desse lugar
Aproveitar hoje, amanhã, sempre...
Fecho os olhos e o frescor do Oceano
Deixa-me silenciosamente feliz.
Cai uma gota estranha em minha face,
A felicidade leva-me ao delírio.
Procuro me acalmar...
Já calmo, vivo esse dia de sonho.



Arilton Bronze

Encantamento - Arilton Bronze

Na praia que vi de passagem
A vida passava tranquila.
A brisa do mar
Beijou minha face carinhosamente
Que tão de leve, quase não senti
Parecia seda ou cetim.
Na praia que vi de passagem
A brisa do verão
Transpassou minha alma e
Eu viajei suave em seu encanto
Na praia que vi de passagem
Tudo era belo, imensamente belo...
Sorri e a praia me olhou
Com um sorriso apaixonado.


Canarinho - Arilton Bronze


Voa, voa canarinho, voa...
Para longe da gaiola
eu sou uma criancinha
Que te ama e te namora.


Voa, voa passarinho
Pela terra sem fim,
Busce a sua liberdade
Cante um dia só para mim.


Voa, voa sem maldade
Não fique preso no alçapão
Viver sem a liberdade
É viver na solidão.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Teu corpo II - Arilton Bronze


Teu corpo
ontem e hoje
chamavas por mim.
Teu corpo
ardente
caliente
chamavas por mim.
Teu corpo
no vento
na água
na cama
na sanha
chamavas por mim.
Teu corpo
despido
macio
cheiroso
deixava-me louco
chamavas por mim.

Luar - Arilton Bronze











Noite bonita
noite de luar,
mulheres amadas
querendo beijar.

Noite de alegria

pequena magia,
mulheres amadas
querendo beijar.

Noite querida
flores bonitas,
mulheres amadas
querendo beijar.
Noite...

Luar...
Mulheres amadas.

Uso de S


Emprega-se a letras S nos seguintes casos:

- Nos adjetivos terminados pelos sufixos –oso/– sa indicadores de abundância, estado pleno.

Exemplos: cheiroso, formosa, dengosa, horroroso.

- Nos sufixos – ês, –  esa, – isa, indicadores de origem, título de nobreza ou profissão.

Exemplos: francês, camponesa, milanês, marquês, duquesa, princesa, poetisa, profetisa.

- Depois de ditongos.

Exemplos: coisa, faisão, mausoléu, maisena, Neusa, lousa.

- Nas frases dos verbos pôr e querer


Exemplos: pus, puser, pusesse; quis, quiser, quisesse.




Sete anos de pastor - Luís de Camões



               

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia o pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira, se não fora
pera tão longo amor tão curta a vida!

Batons Líquidos Negra Rosa