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O homem: as viagens

 Carlos Drummond   O homem, bicho da terra tão pequeno   Chateia-se na terra   Lugar de muita miséria e pouca diversão,   Faz um foguete, uma cápsula, um módulo   Toca para a lua   Desce cauteloso na lua   Pisa na lua   Planta bandeirola na lua   Experimenta a lua   Coloniza a lua   Civiliza a lua   Humaniza a lua.     Lua humanizada: tão igual à terra.   O homem chateia-se na lua.   Vamos para marte - ordena a suas máquinas.   Elas obedecem, o homem desce em Marte   Pisa em Marte   Experimenta   Coloniza   Civiliza   Humaniza marte com engenho e arte.   Marte humanizado, que lugar quadrado.   Vamos a outra parte?   Claro - diz o engenho   Sofisticado e dócil.   Vamos a vênus.   O homem põe o pé em Vênus,   Vê o visto - é isto?   Idem   Ide...

Romance II ou do ouro incansável - Cecília Meireles

Mil bateias vão rodando   sobre córregos escuros; a terra vai sendo aberta por intermináveis sulcos; infinitas galerias penetram morros profundos.   De seu calmo esconderijo, o ouro vem, dócil e ingênuo; torna-se pó, folha, barra, prestígio, poder, engenho . . . É tão claro! — e turva tudo: honra, amor e pensamento.   Borda flores nos vestidos, sobe a opulentos altares, traça palácios e pontes, eleva os homens audazes, e acende paixões que alastram sinistras rivalidades.   Pelos córregos, definham negros a rodar bateias. Morre-se de febre e fome sobre a riqueza da terra: uns querem metais luzentes, outros, as redradas pedras.   Ladrões e contrabandistas estão cercando os caminhos; cada família disputa privilégios mais antigos; os impostos vão crescendo e as cadeias vão subindo.   Por ódio, cobiça, inveja, vai sendo o inferno traçado. Os reis querem seus tributos, — mas não se encontram vassalos. Mil bateias vão rodando, mil bateias sem cansaço....