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Mostrando postagens com o rótulo Crônica

Rita

  Rubem Braga             No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.   Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...              Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.              Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele o seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.              Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e...

Negócio da roça

- Comprei um cavalo por 700 cruzeiros e vendi por 900. Não ganhei nem perdi.             - Mas como? Se você comprou por 700 e vendeu por 900, como é que você não ganhou nem perdeu?             - Não ganhei nem perdi.             - Você não disse que comprou por 700?             - Comprei.             - E não vendeu por 900?             - Vendi.             - Então você ganhou 200.             - Não ganhei nem perdi.             - Mas como?       ...

Um homem de consciência

         Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.          Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos queriam: mudar-se para terra melhor.           Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração o desaparecimento visível de sua Itaoca.          – Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons – agora só um, e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca est...

Da difícil arte de redigir um telegrama

               [...] Há uma história famosa a respeito de uns parentes que tinham que comunicar, por telegrama, a uma senhora que estava viajando, o falecimento de uma irmã. Reuniram-se em volta de uma mesa e “toca” a escrever. Primeiro foi o primo quem redigiu a nota. Depois de alguns minutos mostrou o resultado do seu trabalho: “ interrompa viagem e volte correndo . tua irmã morreu”. Todos leram e um dos tios fez o seguinte comentário:             - Eu acho que não está bom. Afinal de contas, vocês sabem que ela é cardíaca, está viajando e um telegrama assim pode ser um choque. - Todos concordaram, inclusive um outro primo afastado que era meio sovina e achou o telegrama muito longo:             - Depois, com o preço que se paga por palavra, isso não é mais um telegrama, é um telegrana.        ...

Presente para a senhora

             Percorro as listas de presentes possíveis para o Dia das Mães, e sinto a dificuldade do problema. Tanta coisa! Até parece que a mamãe, coitada, não tem objeto algum em casa, desprovida de geladeira, armários, lenços, liquidificador, porta-notas, tigelas de cerâmica, fogão, secador de cabelo, batas...          Não, mamãe tem geladeira sim, claro que tem. Não é desse eletrodoméstico fundamental que saem os refrigerantes, os cremes, as coisas gostosas que ela reservou para o paladar do filhinho? O filhinho hoje é executivo, mas sempre que vai visitar mamãe, sabe que ela guardou para ele um sorvete especial na caverna do congelador. É, mas a geladeira deve ter envelhecido mais depressa que mamãe. Não tem esses babados modelo 75, sugerido para presente a mães classe A.             - Filhinho, que exagero!          ...