quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O defunto eleitoral - Lourenço Diaféria




Atacado a traição por um quibe frito, Ermenegildo morreu. A família lastimou, os amigos se surpreenderam – “Puxa, o Ermenegildo? Mas ele estava bom até outro dia mesmo!...” –, o patrão mandou coroa de flores, dispensou os empregados para comparecerem ao enterro, desde que compensassem as horas paradas, no fim de semana, e alguém comentou: “É, chegou a hora dele. Aliás, ultimamente está morrendo gente que nunca havia morrido antes!”

Ermenegildo era um dos melhores cabos eleitorais do bairro. Tinha influência na região e havia conseguido alguns melhoramentos públicos, como a passagem da carrocinha de cachorros duas vezes por mês, capina do campo de futebol, policiamento ostensivo a cada três meses e a cessão de um terreno em comodato para instalação de uma quadra poliesportiva de malha, bocha e dominó.

Apesar de sua autoridade de cabo eleitoral, nunca se prevalecera disso. Viajara apenas cinco vezes, em toda sua vida, em carro de chapa-branca, mesmo assim a serviço de candidatos. Era honestíssimo. Por conseguinte, pobre. O enterro foi marcado para a tarde do dia seguinte ao quibe. Sem luxo, modestíssimo. Velório do tipo padronizado.

O despojamento da imagem de Ermenegildo no caixão, com uma única coroa de flores ao lado, quatro velas, das finas, e sem ter ao menos a mordomia de um aparelho de ozônio, provocou comentários desairosos em relação ao vereador B.V., que está tentando a reeleição e tinha em Ermenegildo um dos maiores esteios da campanha.

Logo começaram a dizer – “Tá vendo como é a política? Vivo, ele vivia badalado. Agora que finou, o candidato nem aparece para conferir.”
Ficou uma situação chata. Chata mesmo!

O zum-zum-zum, levado por boca de fofoqueiros, chegou rápido aos ouvidos de B.V., que bateu na testa, chamou os sucessores, e berrou: - “Pombas! Vocês querem me ferrar? Então o Ermenegildo morre, vai ser enterrado numa pior, e vocês nem para me avisar? Sacanagem, hem, turma!”

Em menos de uma hora a assessoria técnico-legislativa do vereador-candidato se pôs em campo. Quatro coroas, das grandes, e duas corbelhas, das médias, chegaram ao recinto fúnebre, com dizeres comoventes alusivos ao evento: “Ao Ermenegildo, baluarte da democracia nacional, a homenagem póstuma de seus companheiros de luta e ideais.”

A viúva de Ermenegildo ficou encantada. Por pouco não desabafou de emoção quando o próprio B.V. compareceu ao velório, trazendo na mão uma caixa de bombons com licor.

- “Se é para o Ermenegildo, muito obrigada” – disse a viúva. – “Ele não pode comer chocolate. Era diabético.”
Aliás, Ermenegildo não podia comer nada que fosse gostoso. Nem quibe!
B.V. sossegou-se:

- “Não, minha senhora. Estes bombons são seus! É um preito de gratidão, que faço questão que aceite.”

Logo a seguir chegaram um pacote de velas, das grossas, um aparelho de ozônio e um caixão novo, zero quilômetro, com almofadinha de veludo e estofamento de filó. Coisa fina.

Uma salva de palmas saudou o gesto fidalgo e humano do vereador-candidato. Zé do Mocó, um dos melhores amigos de Ermenegildo, aproveitando que estava com o “38” na cintura, fez menção de dar uma salva de seis tiros em homenagem ao extinto. Mas o pessoal achou que não iria pegar bem, levando-se em conta que o finado era pessoa de boa paz.

Às tantas, depois de contar alguns casos de sua carreira na Câmara Municipal, ouvidos com grande atenção e muitas gargalhadas, B.V. achou que era hora de faturar o acontecimento fúnebre. Aproximou-se da viúva, perguntou:
- Qual é a necrópole do meu amigo?

A viúva não estava a par de necrópole alguma. A única informação que tinha era que Ermenegildo ia ser enterrado daí a pouco na Cachoeirinha. Logo a pergunta se espalhou pelo recinto: “Qual a necrópole?” Até que a confusão se desfez e todos ficaram a par de que Ermenegildo ia ser enterrado numa necrópole, e não num cemitério qualquer. Foi um sucesso. Muitas pessoas, reconhecendo a influência de B.V. no ultimo destino do falecido, fizeram questão de lhe pedir autógrafos.

- “Puxa, assim vale a pena um sujeito ser cabo eleitoral! Quando morre, pelos menos vai para necrópole. Viva o vereador-candidato!” – berrou Zelão do Mocó, sacando o “38”. Para evitar confusão, todo mundo gritou, menos Ermenegildo, é claro: “Viva! Viva! Hip, hurra!”

Quando o furgão da funerária encostou junto ao portão do necrotério, o alvoroço aumentou. Todos os amigos, parentes, conhecidos e eleitores em geral se aproximaram do caixão, para tirar uma ultima fina de Ermenegildo morto. Estava com uma aparência saudável. Ao fechar do esquife, B.V. deu um passo à frente, pigarreou, tirou um lenço do bolso, enxugou algo como lagrima, e pontificou:

- “Meus amigos, amigos do grande Ermenegildo que agora nos deixa para iniciar sua última viagem, meus caros concidadãos, eleitores, munícipes e não-munícipes, brasileiras e brasileiros!...”

Fez um discurso simplesmente maravilhoso. Maravilhoso e demorado! Somente não foi mais demorado porque Zelão do Mocó, talvez inadvertidamente, distraído, tirou da cintura seu “38” e começo a examiná-lo de forma estranha. B.V. encerrou sua oração com palavras de profunda gratidão e reconhecimento à colaboração de Ermenegildo. E disse como epílogo:

- “Tenho certeza de que, se vivo fosse o defunto, Ermenegildo faria questão de colocar no meu esquife mortuário a mesma lembrança que peço licença à digníssima viúva e a todos os presentes para colocar no caixão deste amigo inesquecível. Sei que é esta minha última homenagem, “pos mortem”, a Ermenegildo. E sei que Ermenegildo, este grande coração que deixa agora de palpitar, concorda, em espírito, com ela...”

A seguir, com grande respeito e compunção, B.V. convocou seus assessores e, em conjunto, fecharam o caixão de Ermenegildo e estenderam e fixaram em volta dele uma bonita faixa de algodãozinho, com letras vermelhas, onde se lia: “Para vereador, reeleja B.V., amigo do povo até o fim!” Mas antes de Ermenegildo descer à sepultura em definitivo, B.V. solicitou que a faixa fosse retirada do esquife e enrolada com cuidado, para, eventualmente, ser reutilizada em caso de falecimento de outro correligionário durante a campanha eleitoral.


Lourenço Diaféria, Jornal CRUZEIRO DO SUL, Sorocaba, 30-10-1998.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A Síndrome do Sapo Fervido - Rubem Alves





















"Vários estudos biológicos provaram que um sapo colocado num recipiente com a mesma água da sua lagoa, fica estático durante todo o tempo em que aquecemos a água, até que ela ferva. O sapo não reage ao gradual aumento da temperatura (mudanças do ambiente) e morre quando a água ferve. Inchadinho e feliz.

Por outro lado, outro sapo que seja jogado neste recipiente, já com água fervendo, salta imediatamente para fora. Meio chamuscado, porém vivo !

Temos vários sapos fervidos por aí. Não percebem as mudanças, acham que está muito bom, que vai passar, que é só dar um tempo ! Estão prestes a morrer, porém ficam boiando, estáveis e impávidos, na água em que se aquecem a cada minuto. Acabam "morrendo" inchadinhos e felizes, sem ter percebido as mudanças.
Sapos fervidos não percebem que, além de não serem eficientes (fazer as coisas), precisam ser eficazes (fazer as coisas certas).

E para que isso aconteça, tem que haver um crescimento profissional com espaço para diálogo, para a comunicação clara, para o compartilhamento, para o planejamento e para a relação adulta. O desafio ainda maior está na humildade de atuar de forma coletiva. Fizemos durante muitos anos o culto ao individualismo e a turbulência exige, hoje, o espaço coletivo, que é a essência da eficácia como resposta.

Tornar as ações coletivas exige, fundamentalmente, muita competência interpessoal para o desenvolvimento do espírito de equipe, exige saber partilhar o poder, delegar, acreditar no potencial das pessoas e saber ouvir.

Há sapos fervidos, que ainda acreditam que o fundamental é a obediência e não a competência, que, manda quem pode e obedece quem tem juízo!
Acordem sapos fervidos! Saiam dessa! O mundo mudou! Pulem fora antes que a água ferva. Precisamos estar vivos, meio chamuscados, mas vivos e prontos para agir!"

(Texto transcrito da obra "Teologia do Cotidiano", de Rubem Alves)

Batons Líquidos Negra Rosa