sábado, 14 de janeiro de 2017

O sino de ouro


Conto carioca



          O rapaz vinha passando num Cadillac novo pela Avenida Atlântica. Vinha despreocupado, assoviando um blue, os olhos esquecidos no asfalto em retração. A noite era longa, alta e esférica, cheia de uma paz talvez macabra, mas o rapaz nada sentia. Ganhara o bastante na roleta para resolver a despesa do cassino, o que lhe dava essa sensação de comando do homem que paga: porque tratava-se de um "duro", e era o automóvel o carro paterno, obtido depois de uma promessa de fazer força nos estudos. O show estivera agradável e ele flertara com quase todas as mulheres da sua mesa. A lua imobilizava-se no céu, imparticipante, clareando a cabeleira das ondas que rugiam, mas como que em silêncio.
             De súbito, em frente ao Lido, uma mulher sentada num banco. Uma mulher de branco, o rosto envolto num véu branco, e tão elegante e bonita, meu Deus, que parecia também, em sua claridade, um luar dormente. O freio de pé agiu quase automaticamente e a borracha deslizou, levando o carro maneiroso até o meio-fio, onde estacou num rincho ousado. Depois ele deu ré, até junto da dama branca.
             - Sozinha a essas horas?
            Ela não respondeu. Limitou-se a olhar serenamente o rapaz do Cadillac, com seu olhar extraordinariamente fluido, enquanto o vento sul agitava-lhe docemente os cabelos cor de cinza.
            - Sabe que é muito perigoso ficar aqui até estas horas, uma mulher tão bonita?
            A voz veio de longe, uma voz branca, branca como a mulher, e ao mesmo tempo crestada por um ligeiro sotaque nórdico:
            - Perdi a condução... Não sei... é tão difícil arranjar condução...
            O rapaz examinou-a já com olhos de cobiça. Que criatura fascinante! Tão branca... Devia ser uma coisa branca, um mar de leite, um amor pálido. Suas pernas tinham uma alvura de marfim e suas mãos pareciam porcelanas brancas. Veio-lhe uma sensação estranha, um arrepio percorreu-lhe todo o corpo e ele se sentiu entregar a um sono triste, onde a volúpia cantava baixinho. Teve um gesto para ela:
            - Vem... Eu levo você...
            Ela foi. Abriu a porta do carro e sentou-se a seu lado. Fosse porque a madrugada avançasse, a noite se fizera mais fria e, ao tê-la aconchegada - talvez emoção - o rapaz tiritou. Seus braços eram frios como o mármore e sua boca gelada como o éter. Vinha dela um suave perfume de flores que o levou para longe. Ela se deixou, passiva, em seus braços, entregue a um mundo de beijos mansos.
            Quando a madrugada rompeu, ele acordou do seu letargo amoroso. A moça branca parecia mais branca ainda, e agora olhava o mar, de onde vinha um vento branco. Ele disse:
            - Amor, vou levar você agora.
            Ela deu-lhe seus olhos quase inexistentes, de tão claros:
            - Em Botafogo, por favor.
            Tocou o carro. A aventura dera-lhe um delírio de velocidade. Entrou pelo túnel como um louco e fez, a pedido dela, a curva da General Polidoro num ângulo quase absurdo.
            - É aqui - disse ela em voz baixa.
            Ele parou. Olhou para ela espantado:
            - Por que aqui?
            - Eu moro aqui. Venha me ver quando quiser. Muito obrigada por tudo.
            E dando-lhe um último longo beijo, frio como o éter, abriu a porta do carro, passou através do portão fechado do cemitério e desapareceu.


Vinícius de Moraes, agosto de 1945.


Alô! Tem alguém na escuta?



                Emoções hollywoodianas à parte, a busca por inteligências extraterrestres é um assunto levado a sério por muitos cientistas. Tudo começou em 1960, quando o jovem astrônomo Frank Drake convenceu seu chefe, no Observatório de Radioastronomia de Green Bank, em West Virginia, nos EUA, a gastar US$ 2.000 em um novo equipamento para o radiotelescópio. A ideia de Drake era equipar o telescópio com um receptor dedicado à busca de sinais de rádio gerados por seres inteligentes, que hipoteticamente habitam outras partes do Universo. O projeto foi aprovado na hora.
            Passados 38 anos, a Seti (sigla em inglês para Busca por Inteligências Extraterrestres) continua firme, apesar da falta de fundos, dos resultados até agora negativos e da incredulidade de muitos. Na verdade, o número de observatórios e pesquisadores envolvidos na Seti só tem aumentado nos EUA e em diversos países.
            Como procurar por transmissões de rádio "inteligentes" provenientes de outra civilização? A busca por sinais de rádio inteligentes está concentrada em uma determinada banda de frequência, tipicamente de 1.400 megahertz a 1.720 megahertz, como é o caso do projeto Beta, da Universidade Harvard. A escolha da banda vem da frequência natural do átomo de hidrogênio, de 1.420 megahertz. Como o hidrogênio é o elemento mais abundante no Universo, essa seria a frequência "mais natural" a ser escolhida. Será?
            O receptor do radiotelescópio tem 250 milhões de canais cobrindo essa banda de frequência, ou seja, uma resolução em torno de 1,3 hertz por canal. A quantidade de dados acumulados diariamente chega a ocupar 22 milhões de megabites de memória, posteriormente "filtrados" por um supercomputador, que seleciona possíveis sinais interessantes. Um dos problemas com a Seti é definir quais sinais são resultado de uma transmissão inteligente.
            O financiamento para esse projeto (e outros) vem da Sociedade Planetária, uma entidade privada que conta hoje com mais de 100 mil membros, fundada por Carl Sagan, um entusiasta da busca pela vida extraterrestre. No seu livro "Contato", que recentemente virou filme de enorme (e merecido) sucesso, Sagan conta a história de um contato hipotético com uma civilização muito mais avançada do que a nossa, por meio de ondas de rádio, numa jogada magistral de divulgação e de publicidade para sua organização. Para Sagan, a busca por civilizações extraterrestres é algo que fala a cada um de nós e não deve depender das flutuações na orientação da política científica do governo norte-americano.
            Os que acreditam na existência de vida inteligente fora da Terra citam os grandes números: com bilhões de estrelas só na nossa galáxia, certamente muitos milhões terão planetas à sua volta com condições semelhantes às encontradas aqui. E desses, muitos terão favorecido a evolução de vida inteligente. Já para os descrentes (na maioria biólogos), o processo evolucionário que leva ao desenvolvimento de vida inteligente é tão absurdamente raro que nós somos a exceção e não a regra. Caso isso seja verdade, nós ocuparíamos um lugar sem dúvida muito privilegiado no Universo, o de única civilização inteligente. Privilegiado e profundamente solitário.
            Mas vamos supor que recebamos uma mensagem de uma civilização que habite um planeta localizado a 20 anos-luz do Sol. Essa mensagem nos foi enviada há 20 anos. Como nós acabamos de inventar o rádio, certamente nossos interlocutores serão mais avançados do que nós. Será que devemos responder à sua chamada? Afinal, em uma floresta cheia de perigos desconhecidos, podemos ficar apenas na escuta. Por outro lado, seria impossível resistir à tentação de nos comunicarmos com outros seres inteligentes. Enquanto nós decidimos, nossos radiotelescópios continuam a vasculhar os céus. Será que tem alguém na escuta?

           


Marcelo Gleiser, Folha de S. Paulo, junho/98 

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Aleijadinho - biografia


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Razão e proporção




O Olhar que Mata



            Na cidade de Argos, há uma torre de bronze com janelas que têm grossas barras. Nessa sombria prisão, Dânae, filha do rei Acrísio, chora amargamente. É que seu pai, temendo ser morto pelo filho que um dia ela poderia vir a ter, resolve prendê-la ali por toda a vida. Aprisionado a filha longe de qualquer contato humano, o rei espera evitar esse destino, profetizado por um oráculo.
            No entanto, certa noite uma chuva de ouro começa a cair, gota a gota, por entre as grades das janelas. É Zeus, que, transformado dessa forma, penetra no quarto da princesa. Está apaixonado por ela, e nada conseguiria deter o rei dos deuses. Nem mesmo paredes de bronze.
            Alguns meses depois, Dânae dá a luz um filho, Perseu. Ao saber disso, Acrísio fica enlouquecido de raiva, mas não mata filha e neto. Prefere fechá-los numa grande caixa de madeira, que manda jogar ao mar.
            Durante dias e dias, os coitados flutuam à deriva. Até que, ao largo da ilha de Sefiro, um pescador chamado Díctis percebe a curiosa embarcação. Ele liberta Dânae e o filho e leva-os ao rei da ilha, Polidectes, que resolve proteger os exilados.
            Os anos passam. Perseu transforma-se num rapaz forte e corajoso, que perturba os planos de Polidectes de casar-se à força com Dânae. O rei da ilha, para ficar livre do filho de sua amada ordena-lhe que traga ao palácio a cabeça da górgona Medusa.
            Esta é um monstro terrível: sua cabeleira formada por serpentes embaraçadas, seus dentes compridos e sua língua pendente dão-lhe aspecto assustador. Mas, além disso, há coisa muito pior: o olhar de Medusa transforma em pedra todos os que têm a audácia ou a imprudência de olhá-la. Ao mandar Perseu lutar contra a górgona. Polidectes está condenando-o a uma morte certa. Isso se os deuses não interviessem...
            Atena, a pior inimiga de Medusa, resolve ajudar Perseu em sua aventura e oferece-lhe um escudo brilhante, parecido com um espelho. Hermes dá-lhe uma foice afiada e ajuda-o a obter sandálias aladas e o capacete de Hades, que torna invisível quem o usa. Assim equipado, Perseu parte para o Ocidente, onde vive a temível górgona.
            O herói encontra uma paisagem macabra e desolada. Nenhum pássaro canta, nenhum ser vivo se move naquele deserto árido, semeado de estátuas de todos os infelizes já petrificados por Medusa. Caminhando com prudência, Perseu aproxima-se da górgona, tentando não olhar diretamente para ela. O rapaz fixa os olhos no escudo de Atena e guia-se pelo reflexo da criatura. Em poucos instantes, chega bem perto da górgona, em cuja cabeça as serpentes agitam-se e silvam. Com um único golpe de foice, Perseu decapita Medusa, agarra-lhe a cabeça sem olhá-la e foge com ela metida numa sacola de pano, dessas que os mendigos carregam.
            Do pescoço cortado nascem Pégaso, o cavalo alado, e Crisaor, o guerreiro da espada de ouro. Perseu, embora perseguido pelas irmãs de Medusa, consegue fugir, graças ao capacete que o torna invisível e à velocidade que lhe dão suas sandálias aladas.
            No caminho de volta, o herói detém-se na Etiópia, governada pelo rei Cefeu, cujas terras estão cobertas por um dilúvio e devastadas por um monstro marinho. Para interromper esse flagelo, o deus do mar exige que o rei sacrifique sua filha, Andrômeda, dando-a de comer ao horrível animal. Quando Perseu lá chega, a primeira coisa que vê é a deslumbrante Andrômeda, amarrada a um rochedo fustigado pelas ondas furiosas. O herói apresenta-se ao rei e propõe salvar sua filha sob a condição de depois casar-se com ela e levá-la para a Grécia. Cefeu, que adora Andrômeda, concorda.
            Sem hesitar, Perseu alça voo e lança-se ao combate. Ziguezagueando em volta do animal, consegue enganá-lo e, de surpresa, corta-lhe a cabeça com um golpe da foice. Imediatamente, liberta Andrômeda que se joga nos braços de seu belo salvador. Mas, quando vê que a filha está salva, Cefeu já não tem nenhuma intenção de cumprir sua promessa. Como Andrômeda insiste, o rei manda preparar a festa de casamento. Só que, ao mesmo tempo, organiza uma conspiração para assassinar Perseu.
            O início da festa é interrompido pela chegada de um grupo de homens armados. É uma tropa contratada por Cefeu, o qual, por achar que um homem sozinho não pode enfrentar o herói, preferiu recorrer a um pequeno exército. Com muita coragem, Perseu começa a lutar e liquida muitos adversários. Mas, quando se vê sozinho diante de duzentos inimigos, logo percebe que a derrota é certa. Então, fecha os olhos e tira de dentro da sacola a cabeça de Medusa. Num instante, o exército inteiro transforma-se em pedra. E Perseu, acompanhado de Andrômeda, pode voltar para Sefiro. Quando lá chega, descobre que sua mãe e o pescador Díctis, aterrorizados pelo tirano Polidectes, tiveram de refugiar-se num templo. Furioso, Perseu dirige-se ao palácio, onde encontra o rei no meio de um banquete com os amigos.
            Ao verem Perseu vivo, todos começam a xingá-lo e a zombar dele. Quando diz Ter matado Medusa, eles riem, incrédulos. Então, Perseu olha para o lado e tira da sacola a horrível cabeça. O malvado rei e seus odiosos convidados imediatamente viram pedra.
            O herói deixa com Díctis o trono de Sefiro e volta com Dânae e Andrômeda para Argos. Lá, resolve participar dos jogos atléticos que estão sendo realizados. No lançamento de disco, ele arremessa com muita força esse pesado objeto de metal. E então, seja pela mudança do vento, seja pela vontade dos deuses, o disco descia-se de seu rumo e atinge um espectador: Acrísio, o avô de Perseu.
            A previsão do oráculo se cumpriu.
            Desolado, Perseu não quer suceder o avô. Recusa o trono de Argos, trocando-o pelo de Tirinto, cidade que, sob seu governo, conhecerá a paz e a prosperidade.

Batons Líquidos Negra Rosa