sábado, 31 de março de 2012

O Estúdio do Artista (c. 1665-1666)

Johannes Vermeer (1632-1675)
Óleo sobre tela – 98,5 cm x 118,5 cm

Museu de História da Arte – Viena, Áustria

Esta é uma das obras mais conhecidas de Vermeer e sobre a qual mais se escreveu. No entanto, ela ainda apresenta muitos mistérios para serem resolvidos. A cena tem lugar no ateliê do artista. A mesa de carvalho, que aparece em tantas obras de Vermeer, fazia parte de se inventário. A luz entra por uma janela, que a cortina em primeiro plano não deixa ver. O pintor se apresenta, ou pelos menos representa a figura do artista, de costas para o público e em plena atividade. A mulher que lhe serve de modelo é a sua musa da História, Clio, que posa com uma trombeta na mão direita – quem sabe uma alusão à música. As primeiras críticas em relação à obra diziam que a máscara sobre a mesa simbolizava a escultura, que jazia vencida pela pintura. No entanto, todos os outros objetos – um livro, um pano e um caderno mantêm-se incógnitos, ainda desprovidos de segundos sentidos. O mapa ao fundo apresenta a antiga situação histórica dos Países Baixos. Talvez Vermeer pretendesse destacar a importância da pintura histórica na arte de seu país.

Só pra não esquecer









Algumas caricaturas de famosos














terça-feira, 27 de março de 2012

Entrelinhas - Maristher Motta Bello


Às vezes, o mundo é azul
Outras, é diamante – reluz
Às vezes, é só colorido
Outras, parece tingido
Às vezes, é cinzento de um momento
Outras, é o carmim da flor que chegou para mim
Não sei por que as cores me intrigam assim
Como pode uma cor ser boa ou ruim?
O mundo, entre outras coisas, é luz
A luz, entre outras coisas, é cor
E, entre outras coisas, a cor é meu mundo
E o mundo é um mundo de cor
E eu, às vezes, não sei da cor
E eu, às vezes, não sei dar a cor que me seduz
Mas, sei que cada segundo
O mundo, entre outras coisas,
Está transbordando de luz.





domingo, 11 de março de 2012

Macacos me mordam – Fernando Sabino

            Morador de uma cidade do interior de Minas me deu conhecimento do fato: diz ele que há tempos um cientista local passou telegrama para outro cientista, amigo seu, residente em Manaus:
            “Obséquio providenciar remessa 1 ou 2 macacos”.
            Necessitava ele de fazer algumas inoculações em macaco, animal difícil de ser encontrado na localidade. Um belo dia, já esquecido da encomenda, recebeu resposta:
            “Providenciada remessa 600 restante seguirá oportunamente”.
            Não entendeu bem: o amigo lhe arranjara apenas um macaco, por seiscentos cruzeiros? Ficou aguardando, e só foi entender quando o chefe da estação veio comunicar-lhe:
            – Professor, chegou sua encomenda. Aqui esta o conhecimento para o senhor assinar. Foi preciso trem especial.
            E acrescentou:
            – É macaco que não acaba mais!
            Ficou aterrado: o telégrafo errara ao transmitir “1 ou 2 macacos”, transmitira “1002 macacos”! E na estação, para começar, nada menos que seiscentos macacos engaiolados aguardavam desembaraço. Telegrafou imediatamente ao amigo:
            “Pelo amor Santa Maria Virgem suspenda remessa restante”.
Ia para a estação, mas a população local, surpreendida pelo acontecimento, já se concentrava ali, curiosa, entusiasmada, apreensiva:
            – O que será que o professor pretende com tanto macaco?
            E a macacada, impaciente e faminta, aguardava destino, empilhada em gaiolas na plataforma da estação, divertindo a todos com suas macaquices. O professor não teve coragem de aproximar-se: fugiu correndo, foi se esconder no fundo de sua casa. A noite, porém, o agente da estação veio desentocá-la:
            – Professor, pelo amor de Deus, vem dar um jeito naquilo.
            O professor pediu tempo para pensar. O homem coçava a cabeça, perplexo:
            – Professor, nós todos temos muita estima e muito respeito pelo senhor, mas tenha paciência: se o senhor não der um jeito eu vou mandar trazer a macacada para sua casa.
            – Para minha casa? Você está maluco?
            O impasse prolongou-se ao longo de todo o dia seguinte. Na cidade não se comentava outra coisa, e os ditos espirituosos circulavam:
            – Macacos me mordam!
            – Macaco, olha o teu rabo.
            A noite, como o professor não se mexesse, o chefe da estação convocou as pessoas gradas do lugar: o prefeito, o delegado, o juiz.
            – Mandar de volta por conta da prefeitura?
            – A prefeitura não tem dinheiro para gastar com macacos.
            – O professor muito menos.
            – Já estão famintos, não sei o que fazer.
            – Matar? Mas isso seria uma carnificina!
            – Nada disso – ponderou o delegado: – Dizem que macaco guisado é um bom prato…
            Ao fim do segundo dia, o agente da estação, por conta própria, não tendo outra alternativa, apelou para o último recurso – o trágico, o espantoso recurso da pátria em perigo: soltar os macacos. E como os habitantes de Leide durante o cerco espanhol, soltando os diques do mar do Norte para salvar a honra da Holanda, mandou soltar os macacos. E os macacos foram soltos! E o mar do Norte, alegre e sinistro, saltou para a terra com a braveza dos touros que saltam para a arena quando se lhes abre o curral – ou como macacos saltam para a cidade quando se lhes abre a gaiola. Porque a macacada, alegre e sinistra, imediatamente invadiu a cidade em pânico. Naquela noite ninguém teve sossego. Quando a mocinha distraída se despia para dormir, um macaco estendeu o braço da janela e arrebatou-lhe a camisola. No botequim, os fregueses da cerveja habitual deram com seu lugar ocupado por macacos. A bilheteira do cinema, horrorizada, desmaiara, ante o braço cabeludo que se estendeu através das grades para adquirir uma entrada. A partida de sinuca foi interrompida porque de súbito despregou-se do teto ao pano verde um macaco e fugiu com a bola 7. Ai de quem descascasse preguiçosamente uma banana! Antes de levá-la à boca um braço de macaco saído não se sabia de onde a surrupiava. No barbeiro, houve um momento em que não restava uma só cadeira vaga: todas ocupadas com macacos. E houve também o célebre macaco em casa de louças, nem um só pires restou intacto. A noite passou assim, em polvorosa. Caçadores improvisados se dispuseram a acabar com a praga – e mais de um esquivo notívago correu risco de levar um tiro nas suas esquivanças, confundido com macaco dentro da noite.
            No dia seguinte a situação perdurava: não houve aula na escola pública, porque os macacos foram os primeiros a chegar. O sino da igreja badalava freneticamente desde cedo, apinhado de macacos, ainda que o vigário houvesse por bem suspender a missa naquela manhã, porque havia macaco escondido até na sacristia.
            Depois, com o correr dos dias e dos macacos, eles foram escasseando. Alguns morreram de fome ou caçados implacavelmente. Outros fugiram para a floresta, outros acabaram mesmo comidos ao jantar, guisados como sugerira o delegado, nas mesas mais pobres. Um ou outro surgia ainda de vez em quando num telhado, esquálido, assustado, com bandeirinha branca pedindo paz à molecada que o perseguia com pedras. Durante muito tempo, porém, sua presença perturbadora pairou no ar da cidade. O professor não chegou a servir-se de nenhum para suas experiências. Caíra doente, nunca mais pusera os pés na rua, embora durante algum tempo muitos insistissem em visitá-la pela janela.
            Vai um dia, a cidade já em paz, o professor recebe outro telegrama de seu amigo em Manaus:
            “Seguiu resto encomenda”.
            Não teve dúvidas: assim mesmo doente, saiu de casa imediatamente, direto para a estação, abandonou a cidade para sempre, e nunca mais se ouviu falar nele.

Fernando Sabino. In Para gostar de ler, vol. 1. São Paulo. Ática, 1994.

Batons Líquidos Negra Rosa