Capoeira Angola X Capoeira Regional: um debate necessário


Marcio Teixeira Lopes
FCL/Unesp


O meu estilo é só capoeira, pois, nos fundamentos, a Capoeira se joga de acordo com o toque do berimbau, cada toque é um tipo de jogo, e o verdadeiro capoeirista tem que saber jogar o que o berimbau pedir (...). Esse negócio de só Angola ou só Regional, eu não concordo (...) uma roda de Capoeira de verdade dentro do ritual, tem que ter todos os toques, para que se faça todos os tipos de jogos.


Percebemos na citação acima uma afirmação muito comum no universo da capoeira. Trata-se do entendimento de diversos capoeiristas, que seria possível ser adepto dessas duas “modalidades de capoeira”. Porém, acreditamos que a Capoeira Angola e a Capoeira Regional não são apenas movimentos físicos diferentes utilizados dentro de uma roda de capoeira, mas sim, estilos diferentes que transportam para o universo da capoeira modos diferentes de pensar a sociedade. Assim, no decorrer do presente estudo, pretendemos apontar apresentar alguns argumentos que apontam no sentido da impossibilidade de ser praticante ao mesmo tempo da Capoeira Angola e da Capoeira Regional.

Para este entendimento, torna-se necessário saber que a capoeira aparece no Brasil como um instrumento de defesa dos negros africanos em seus anseios por liberdade durante a sociedade escravista. Os negros eram aprisionados e trazidos para o Brasil para serem utilizados como mão-de-obra escrava. Faz-se necessário dizer, no entanto, que estes fizeram uma forte resistência à escravidão, fugindo, formando quilombos e, até mesmo, suicidando-se. Para os negros que fugiam – ao serem capturados – estes eram fortemente castigados, sendo o tronco o mais comum dos castigos, onde o negro fugitivo era amarrado e chicoteado em público, servindo assim de exemplo para os outros.

Durante o processo de transição entre a queda da Monarquia e a Proclamação da República, mesmo tendo ao lado dos propagandistas da República maltas ou bandas, como eram conhecidos os agrupamentos de negros, muitos negros foram utilizados na defesa da Monarquia, sendo a Guarda Negra, uma das mais importantes formas de resistência da Monarquia frente aos propagandistas da República. Como exemplo dos incidentes entre estes dois grupos, podemos citar o ocorrido em uma conferência de Silva Jardim na Sociedade

Francesa de Ginástica, tendo sido interpretada de maneira superficial pelos republicanos, como nos conta Carvalho (1998, p. 29)

Vários incidentes verificaram-se entre os propagandistas e a Guarda. O mais sério de todos deu-se com a interrupção, que resultou em mortos e feridos, de uma conferência de Silva Jardim, em dezembro de 1888, na Sociedade Francesa de Ginástica. Dizer que se tratava apenas de capoeiras baderneiros manipulados pela polícia, como o fizeram os republicanos e até mesmo Rui Barbosa, não basta. Permanece o fato de que os republicanos não conseguiram a adesão do setor pobre da população, sobretudo dos negros.

Assim, para que houvesse um definitiva consolidação da República teve início uma enorme caçada aos capoeiras, que tiveram sua prática proibida já com o Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil, instituído pelo decreto 857, de 11 de outubro de 1890, onde a figura do capoeira encontra-se enquadrada no capítulo XIII, intitulado ”Dos Vadios e capoeiras”, como nos transcreve Barbieri (1993, p.117-118)

Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação capoeiragem3 : andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal; Pena: De Prisão celullar de dous a seis mezes


Podendo ainda ter sua pena agravada, caso pertencesse a alguma “banda” ou “malta”, ou fosse chefe ou cabeça a pena seria dobrada.

Um fato interessante que observamos a respeito da proibição da capoeira, é que o Estado passa a persegui-la por conta da desordem que os capoeiras promoviam, como podemos observar na citação acima. Porém, outras manifestações da cultura africana no Brasil, como os seus cultos religiosos e até mesmo o samba, passaram também a ser perseguidas. Dessa forma, entendemos que o que realmente estava em jogo era conter o modo de vida negro, ou seja, a “barbárie negra”, que vinculava os negros e o seu modo de vida à forma caótica que vivia a sociedade nesta época, como nos conta Mello (2002)

(...) várias manifestações afro-brasileiras, como o candomblé, o samba e a capoeira, foram veementemente perseguidas pelas autoridades sob o argumento de conter a “barbárie negra”, de conter doença moral que proliferava nas cidades civilizadas. Discurso carregado de princípios médicos higienistas que pressupõe a inferioridade da raça negra.

Com a Proclamação da República e o início da imigração européia para realização dos trabalhos no campo, um grande contingente de negros migrou para as cidades que, por não comportarem tal aumento populacional, foram acometidas de surtos endêmicos, ocasionados pela falta de moradias, de abastecimento de água, saneamento básico e condições de higiene que a população pobre, em especial os negros, vivia.

Tais doenças seriam posteriormente relacionadas aos negros, suas habitações, suas manifestações culturais e a sua “condição inferior” dada pelo discurso higienista. A “cultura bárbara” não podia tomar conta das ruas de cidades como o Rio de Janeiro, na época, capital da República e tida como cartão-postal do Brasil.

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