O espaço do texto literário na sala de aula - Jackson Cruz



A prática do texto permite que a sala de aula seja envolvida em uma atmosfera de possibilidades e encantos. A leitura, a interpretação e, sobretudo, a produção textual proporcionam ao aluno perceber novos mundos, o contato com outras realidades e culturas diferentes da sua, a interação com o autor ou autores dos textos lidos. E quando o professor sugere que ele mesmo, o educando, produza textos é uma oportunidade de humanização de um ser que outrora parecia distante, inacessível até, mas que agora está ali interagindo, dialogando com a turma a partir do texto.


Levar o texto para sala de aula é dar voz ao outro e proporcionar que idéias diferentes se confrontem, que os contrários se choquem e que o conhecimento se configure de várias formas. Além de conceder ao estudante a oportunidade da fala, da construção e exposição de idéias, da manifestação, da interação e crescimento coletivo. Pode ser o momento no qual a classe e o educador percebem-se como parte de, criadores de, defensores de, indignados com e o que é mais importante; capazes de... O texto ainda permite que a escola que se tem comece a ser a escola que se deseja. Aquela que muitos pregaram; uma escola não conteudista, escola que Freire (2002) sugeriu, uma escola formadora que não se prende à mera transferência de saberes.


É mister que todos os envolvidos no processo de educar; professores, diretores, coordenadores, proprietários de escolas e etc., estejam cientes do verdadeiro papel do texto. E do lugar que o mesmo deve ter na sala de aula. Pois leitura e produção textual não podem continuar servindo como válvula de escape para a ausência de planejamento de uma segunda-feira preguiçosa, atividade solta e para nenhum proveito. Ainda que não goste de ler, tampouco de literatura o educador precisa conhecer não só a literatura brasileira, mas a portuguesa, a africana de expressão portuguesa e ser ele mesmo um promotor da leitura dos clássicos, e também dos contemporâneos.


O professor de Português deve estar familiarizado com uma leitura bastante extensa de literatura, particularmente da brasileira, da portuguesa e da africana de expressão portuguesa. Freqüentador assíduo dos clássicos, sua opção pelos contemporâneos, pelas crônicas curtas ou pelos textos infantis deve ser, quando for o caso, mera preferência. Em outras palavras: o professor de Português pode não gostar de Camões nem de Machado de Assis. Mas precisa conhecê-los, entendê-los e ser capaz de explicá-los. (LAJOLO, Marisa. 1994. p. 21 e 22)


Nossas aulas precisam abarcar e compreender o texto, sobretudo o texto literário. Pois, a literatura, dado a seu apelo à musicalidade, ao ritmo, desperta o leitor, toca sua sensibilidade e aguça sua curiosidade; ao passo que amplia sua visão de mundo, além de ser um forte componente de formação cultural. Assim fazendo, o educador proporcionará à sua turma oportunidade de aprendizado e crescimento intelectual. E muitas das tentativas frustradas que hoje se vê nas instituições de ensino cederiam lugar ao gozo maravilhoso do aprender/fazer aprendendo/fazendo. Assim, observa-se que


Quanto mais evidente ficar para o professor a importância da leitura literária como poderosa fonte de formação de sensibilidades e de ampliação de nossa visão de mundo, que tem nessa linguagem artística um componente essencial de formação, culturalmente valorizado (embora pouco demandado e pouco ofertada socialmente), mais significativas se tornarão as práticas de letramento literário propostas. (PAIVA. Aparecida; MARTINS. Aracy; PAULINO. Graça; VERSIANI (Org.). 2005, p. 116.)

Infelizmente, leitura é sinônimo de dor, náuseas e desconforto mental. Isso quando a mesma não se faz completamente ausente das aulas. Há quem pense que leitura é assunto apenas para aula de Português, e o que é pior, há também aqueles que odeiam a disciplina e adoram transformar aula de literatura em momentos torturantes de decorar nomes de autores, obras e estilos de época perdendo de vista o verdadeiro papel da literatura e do texto literário. Por excelência o texto literário não deve ser usado como pretexto para nada, muito menos para se decorar nomes e datas, o texto quando concebido pelo autor tem o único propósito de ser lido. Não de ser dissecado como um rato de laboratório por "um cientista louco" ávido por encontrar pronomes, antítese, elipses, verbos, períodos simples, orações subordinadas e outros. São essas desgraças que tornam as aulas de leitura e interpretação de textos miseravelmente medíocres.


Deve haver também um lugar para a Poesia pura nas aulas de todas as séries do ensino fundamental. E não se defende aqui um lugar apenas no planejamento do professor de português, pelo contrário, urge que se dê um lugar físico para a poesia na escola do terceiro milênio. Nesta época louca, veloz e efêmera há algo na Poesia que não se pode mais negligenciar, pois é ela a única capaz de dialogar e interagir com o homem pós-moderno.


[...] a poesia [...] auxilia a compreensão da compreensão da comunicação do irracional e o incomunicável, funcionando como antídoto em uma civilização urbana técnica. (ZILBERMAN, Regina. 1993. p. 69)

A poesia é lúdica, convida ao sonho, à musicalidade, ao ritmo. Mas nossa prática subtraiu a poesia da sala de aula e da vida do aluno. Nossas aulas tornaram-se frias e insulsas. As crianças sofrem sem um referencial no qual possam ancorar seus medos infantis, são negligenciadas suas fases do desenvolvimento. Seu psicológico é vilmente atacado sem se respeitar seu tempo. E a escola que deveria proporcionar-lhe encantos e descobertas não se atem para o fato de que

No desenvolvimento do psiquismo infantil, como se sabe, tanto no plano lingüístico, como no psicológico, um dos elementos essenciais esta na própria noção de ritmo, desenvolvida através das atividades corporais, musicais e outras, e onde a poesia pode funcionar como eixo desencadeador. (ZILBERMAN, Regina. 1993 p. 68)
Claro que a poesia não é a solução milagrosa para todos os problemas da escola contemporânea, mas bem que se poderia evitar uma série de outros futuros problemas se a levássemos de forma organizada e planejada para escolas, praças e ruas de nossas cidades transformando nossa prática pedagógica em uma ação formadora e significativa. Pois através da leitura, discussão, e posterior produção o aluno poderá ampliar sua capacidade psíquica, sua visão de mundo e sua linguagem.


Neste estatuto de ampliação do psíquico individual, e da cognição do universo, o social, realizado pela linguagem, se coloca a importância do espaço a ser concebido à poesia na escola e sua verdadeira necessidade numa ação formadora. (ZILBERMAN, Regina. 1993. p. 69)

Urge transformar sala de aulas, corredores, pátios, refeitórios, etc. em espaços que exalem conhecimento, sugiram, agucem a imaginação, permitam e permitam o sonho e convidem à leitura. E nisso a Poesia pode prestar grandes serviços à educação. Pois,


Na sua forma mais simples a poesia (cantigas de ninar, cantos etc.) constitui uma maneira de ensinar a dominar certos ritmos fundamentais do ser, entre eles o respirar. Um poema, para ser dito, implica uma diversidade de suas estruturas acentuais, rítmicas, uma disciplina do sopro. Mediante a qual se conquista a liberdade de dizer. (ZILBERMAN, 1993. p. 68)

Os estudiosos alertam para os benefícios proporcionados pela simples leitura do texto poético. É cruel não disponibilizar aos estudantes tais benefícios. Há uma multidão de pessoas que temem diante da possibilidade de falar em público, infelizmente, não estamos falando de alunos aqui, há um sem número de professores que tremem ante a idéia de falar a uma platéia. Nada disso aconteceria se a poesia se lhes fosse apresentada ao longo de sua formação. Pois a poesia pode desenvolver a personalidade, formar o gosto e a sensibilidade. Levá-la para o interior de nossas salas é proporcionar a meninos e meninas a oportunidade de falar, de expor suas idéias, compartilhar com os outros e construir conhecimento. De outra forma nossas aulas não passam de meras reprodutoras. E isso precisa ter fim um dia.


Os estudantes, sobretudo os mais novos, precisam de um elo que os liguem ao mundo, que lhes proporcione crescimento lingüístico, e aquisição do saber. Isso pode acontecer mais facilmente a partir do texto literário. Com ele meninos e meninas pobres transformam-se em reis e rainhas, conquistam reinos, praticam atos heróicos, conhecem lugares, desbravam florestas impenetráveis, enfim. Tornam-se outras pessoas. E sofrem e são felizes a partir da experiência do outro.


... A produção literária para a criança – o livro de imagens inclusive – não tem fronteiras. Ela desvela o maravilhoso, o ilimitado, o maleável, o criativo universo infantil, explora a poesia, suscita o imaginário. (Paiva, 2005. p. 117)

Mas infelizmente tal experiência lhes têm sido negada. Quem abre espaço para o texto poético em suas aulas vislumbra um aluno criativo que argumenta, critica e produz. O aluno que participa de aulas de leitura cresce, compreende melhor o mundo. No entanto, a escola que se tem não será a que se defende em um passe de mágica como que por encanto. É necessário planejamento, estudo, pesquisa e, principalmente, transformação e adequação do espaço físico.


Cada canto, corredor, sala, muro, portões, chão e teto devem sugerir, convidar e mesmo conduzir a um encantado momento de leitura. Leitura vagabunda, sem compromisso, sem segundas intenções ou aquela indigesta lista de conteúdos gramaticais. Ler pelo doce prazer da leitura, leitura que fascina, vislumbra, que angustia, ler para se indignar, para ver passar o tempo ou para não vê-lo de forma alguma, percebê-lo tão somente nas páginas. Ler apenas por que existem livros e as palavras convidam. Ler por que a Poesia fala à alma. Todavia, para que isso aconteça as cores das paredes precisam inspirar leitura, a estrutura escolar como um todo deve sugerir um livro, frases, trechos de obras, fragmentos ou mesmo poemas inteiros podem ser temas de murais, cartazes ilustrativos, painéis temáticos ornamentam o ambiente e prestam grande serviço à imaginação

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