sábado, 11 de dezembro de 2010

Tipos de discurso

Afrânio Garcia (UERJ)

INTRODUÇÃO

O professor Adilson Citelli, em seu excelente livro Linguagem e persuasão, apresenta cinco tipos de discurso:
§ discurso dominante
§ discurso autorizado
§ discurso polêmico,
§ discurso lúdico
§ discurso autoritário.

Refletindo sobre o assunto, pareceu-nos que o professor Citelli deixou de mencionar seis outros tipos de discurso, quais sejam:

§ discurso filosófico-questionador,
§ discurso sedutor
§ discurso amoroso
§ discurso científico
§ discurso emocional
§ discurso servil.

Em nosso artigo, pretendemos fazer uma breve exposição sobre estes onze tipos de discurso.

OS TIPOS DE DISCURSO DO PROFESSOR ADILSON CITELLI

O discurso dominante, juntamente com o discurso autorizado, formam a expressão da fala do “stablishment”, da organização do poder vigente. O discurso dominante verbaliza a fala, os princípios, os anseios e os ditames da oligarquia que detém o poder num determinado contexto. Qualquer discurso de um presidente, monarca, ditador ou ministro de Estado constituiria um exemplo de discurso dominante. É interessante notar que o discurso dominante, embora represente o poder, não é necessariamente autoritário, violento ou mesmo negativo. Se o presidente Lula determinasse a criação de 10 milhões de novos empregos, por concurso, ou a construção de milhões de novas moradias para as pessoas de baixa renda, estas seriam medidas extremamente benéficas e positivas, mas constituiriam, ainda assim, exemplos inequívocos do discurso dominante.

O discurso autorizado, por sua vez, seria aquele proferido por alguém dotado de autoridade para ser o porta-voz de um determinado segmento social ou instituição. O discurso de um médico, de um reitor ou do gerente de uma empresa constituiriam bons exemplos do discurso autorizado. O discurso autorizado, muitas vezes, encontra-se a serviço do discurso dominante (por exemplo, os juízes da Alemanha nazista davam foros de legalidade à maioria das arbitrariedades cometidas pelos sequazes de Hitler), mas não deveria. Pode-se mesmo dizer que o grau de liberdade, progresso e desenvolvimento de uma nação poderia ser aquilatado pelo maior ou menor grau de independência existente entre o discurso autorizado e o discurso dominante.

O discurso polêmico é aquele em que duas ou mais pessoas ou facções emitem opiniões contrárias, podendo ir desde uma discussão banal, como “qual o melhor time de futebol?”, até discussões de grande alcance filosófico-existencial, como “qual o melhor sistema político: presidencialismo ou parlamentarismo?”. É um tipo de discurso com duas facetas: por um lado, ele estimula o intelecto, na medida em que nos põe em contato com os vários ângulos de uma questão; por outro lado, o engajamento em discussões estéreis implica uma demanda de tempo precioso, que poderia ser melhor aproveitado em atividades mais construtivas.

O discurso lúdico é aquele feito por puro prazer, normalmente sem visar a persuasão, objetivando somente a comunicação interpessoal, o diálogo (em alguns casos, nem isso, apenas a comunicação consigo mesmo, o monólogo). É importantíssimo para nossa saúde mental e nosso bem estar, visto sermos seres gregários, que se ressentem da ausência de contato e comunicação. Como exemplo de discurso lúdico, podemos citar a fala de uma criança (inicialmente, mais uma brincadeira do que uma tentativa real de se comunicar), muitos poemas e canções (principalmente aquelas da “Bossa Nova”), a conversa entre amigos de longa data e grande intimidade, o ato de contar piadas.

O discurso autoritário, em que o falante impõe sua vontade sobre o ouvinte, geralmente sem lhe dar oportunidade de responder ou questionar. Representa a vontade de poder, de influenciar comportamentos, de obter vantagens. É importante notar que o discurso autoritário não tem nada a ver com o discurso dominante, já que mesmo pessoas sem poder nenhum podem ser extremamente autoritárias, como é o caso de um mendigo que subjugue sua companheira, de um porteiro que humilhe outro porteiro, etc.



OUTROS TIPOS DE DISCURSO


O discurso filosófico-questionador é um tipo de discurso específico, muitas vezes até um solilóquio, em que o falante pergunta ao seu interlocutor ou a si mesmo as razões que explicariam algum fato da natureza ou da sociedade ou ainda tenta investigar a constituição, a essência de algo. É importante notar seu caráter duplo, evidenciado pela duplicidade presente no nome que lhe atribuímos: por um lado, esse tipo de discurso procura saber a verdade por trás dos fenômenos, das aparências: por outro lado, ele questiona as “verdades estabelecidas”, as crenças generalizadas. Textos filosóficos, artigos como os do Arnaldo Jabor ou do Olavo de Carvalho, constituiriam bons exemplos do discurso filosófico-questionador.

O discurso sedutor é a persuasão suave (ao contrário do discurso autoritário), em que se busca agradar, fascinar, envolver o ouvinte, para conseguirmos nossos intentos. Seu exemplo mais óbvio é a sedução, mas uma boa aula, uma palestra instigante, uma propaganda envolvente, também são bons exemplos do discurso sedutor.
O discurso amoroso deve ser separado do discurso sedutor: aqui, trata-se do discurso entre pessoas que já consumaram a sedução ou entre pessoas que têm grande afeição, mas que não envolve um processo de sedução (como pais e filhos, parentes, almas gêmeas). O discurso amoroso é caracterizado pela reafirmação constante da afeição, por meio de palavras carinhosas, murmúrios, códigos específicos (como “bizunguinho/a”, “Teté”) e por entoações próprias.

O discurso científico talvez deva ser separado do discurso autorizado, porque tanto a prática científica quanto a transmissão do saber científico podem ser feitos por pessoas que não têm autoridade para representar um segmento social ou uma instituição, apenas executam tarefas determinadas por aquelas têm esta autoridade. O que irá caracterizar o discurso científico são dois fatores: a necessidade de um glossário próprio (e apropriado) e a impessoalidade (sempre buscada, nem sempre alcançada) do discurso. Qualquer livro acadêmico pode confirmar essas duas
características do discurso científico.

O discurso emocional exibe a característica de transmitir sua mensagem muito mais pelo viés da emoção do que do significado presente no texto. Isso não o impede de ser extremamente eficiente como persuasão. Muitos políticos foram eleitos com discursos totalmente vazios de significado, apelando unicamente para a emoção, como o deputado que dizia “Eu te amo” ou a senadora que dizia “Sou negra, mulher e favelada”. No primeiro caso, a frase qualificaria um potencial marido, nunca um deputado; no segundo, as qualidades exibidas são absolutamente independentes de qualquer esforço e totalmente desvinculadas das competências esperadas de uma senadora. Crianças e adultos que se comportam mal ou afetam doença para pedir atenção também são exemplos típicos do discurso emocional.

Por último, temos o discurso servil. Causa espécie o grande número de pessoas que discorre, com profusão de detalhes e profundidade, sobre o discurso autoritário e sequer menciona sua contrapartida, o discurso servil. É bastante comum, em artigos sobre a escravidão e sobre a necessidade de liberação das mulheres, afirmar-se que o ponto máximo de eficiência do discurso autoritário ocorre quando o dominado assume como seu e reproduz o discurso do dominador. No Brasil, país marcado por intenso autoritarismo (com e sem ditadura), praticamente não se passa um dia sem ouvir algum exemplo de discurso servil: a aceitação e até a satisfação com discursos como “o de cima sobe e o de baixo desce” ou “se dinheiro fosse chão, pobre vivia voando”; a valorização de poderosos só porque são poderosos; a negação de qualquer coisa mais elevada ou digna para si mesmo; o escracho, a vulgaridade forçada, a autodesvalorização, o conformismo orgulhoso.


CONCLUSÃO


Sem desmerecer o trabalho do professor Adilson Citelli, consideramos que o estudo dos tipos de discurso deveria ser mais abrangente, já que o caráter extremamente pessoal dos discursos sedutor e amoroso, o caráter histórico-social dos discursos emocional e servil e o caráter intelectualizado dos discursos filosófico-questionador e científico não devem ser descartados em nenhum estudo sério dos tipos de discurso.


http://www.filologia.org.br/soletras/5e6/14.htm

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