domingo, 31 de outubro de 2010

ANÁLISE DO DISCURSO

ANÁLISE DO DISCURSO

INTRODUÇÃO
Este resumo foi elaborado de acordo com o livro Análise de Discurso – Princípios e procedimentos, da autora Eni P. Orlandi, o qual divide-se em três capítulos sendo: I - O Discurso; II - Sujeito, História, Linguagem e III - Dispositivo de Análise.
I. O DISCURSO
A Análise de Discurso de acordo com a autora, não trata da língua, não trata da gramática embora todas essas coisas lhe interessem. Ela trata do discurso. E a palavra discurso etimologicamente, tem em si a idéia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando. Na análise de discurso procura-se compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história. A Análise de discurso concebe a linguagem como mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social. Essa mediação que é o discurso torna possível tanto a permanência e a continuidade quanto o deslocamento e a transformação do homem e da realidade em que ele vive. O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana. Levando em conta o homem na sua história, considera os processos e as condições de produção de linguagem, pela análise da relação estabelecida pela língua com os sujeitos que falam e as situações em que se produz o dizer. Tendo em vista esta finalidade, ele articula de modo particular conhecimento do campo das Ciências Sociais e do domínio da Lingüística. Fundando-se em uma reflexão sobre a história da epistemologia e da filosofia do conhecimento empírico, essa articulação objetiva a transformação da prática das ciências sociais e também a dos estudos da linguagem. Nessa confluência, a Análise de Discurso critica a prática das ciências sociais e da Lingüística, refletindo sobre a maneira de como a linguagem está materializada na ideologia e como essa ideologia se manifesta na língua e que de acordo com M. Pêcheux (1975) “não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia e é assim que a língua faz sentido”


UM NOVO TERRENO E ESTUDOS PRELIMINARES
De acordo com Orland, a Análise de Discurso que toma o discurso como seu objeto próprio, tenha seu início nos anos 60 do século XX, o estudo de que interessa à ela – o da língua funcionando para a produção dos sentidos e que permite analisar unidades além da frase, ou seja, o texto-já se apresentara de forma não sistemática em diferentes épocas e segundo diferentes perspectivas que são: a semântica histórica., o texto como estrutura e maneiras de abordagem como a análise de conteúdo.
A Análise de conteúdo tem como objetivo extrair o sentido do texto, já a Análise de Discurso considera que a linguagem não é transparente. Desse modo ela não procura atravessar o texto para encontrar um sentido do outro lado. Ainda em termos de precursores outra forma de análise bem sucedida.

FILIAÇÕES TEÓRICAS
Nos anos 60, a Análise de Discurso se constitui no espaço de questões criadas pela relação entre três domínios preliminares que são ao mesmo tempo uma ruptura com o século XIX: a Lingüística, o Marxismo e a Psicanálise.A Lingüística constitui-se pela afirmação da não transparência da linguagem: ela tem seu objeto próprio, a língua tem sua ordem própria, a história tem seu real afeto pelo simbólico, o sujeito da linguagem é descentrado, pois afetado pelo real da língua e também pelo real da história. As noções de sujeito e da linguagem que estão na base das Ciências Humanas e Sociais no século XIX já não têm atualidade após a contribuição da Lingüística e da Psicanálise. Por outro lado, a noção da língua como sistema abstrato pode ser a mesma com a contribuição do Materialismo. O Discurso em sua definição distancia-se do modo como o esquema elementar da comunicação dispõe seus elementos, definindo o que é mensagem, também não se deve confundir discurso com “fala” na continuidade da dicotomia (língua/fala) proposta por F. de Saussure. O discurso tem sua regularidade, tem seu funcionamento que é possível apreender se não opomos o social e o histórico, o sistema e a realização, o subjetivo ao objetivo, o processo ao produto. Um outro recorte teórico feito pela Análise de Discurso é a sistematicidades lingüísticas – que nessa perspectiva não afastam o semântico como se fosse externo - são as condições materiais de base sobre as quais se desenvolvem os processos discursivos.

II. SUJEITO, HISTÓRIA, LINGUAGEM.
CONJUNTURA INTELECTUAL DA ANÁLISE DE DISCURSO
A Análise de Discurso visa a compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para e por sujeitos. Essa compreensão, por sua vez, implica em explicitar como o texto organiza os gestos de interpretação que relacionam sujeito e sentido, produzindo assim novas práticas de leitura. Cada material de análise exige que seu analista, de acordo com a questão que formula, mobilize conceitos que outro analista não mobilizaria, face á outras questões, uma análise não é igual a outra porque mobiliza conceitos diferentes e isso tem resultados cruciais na descrição dos materiais, entretanto, o dispositivo teórico e o analítico são de diferentes formas sendo que o que define o dispositivo analítico é a questão posta pelo analista, a natureza do material que analisa e a finalidade de análise, já quanto ao dispositivo teórico cabe ao analista a interpretação de acordo com as descrições materiais com determinada prática de leitura. A Análise de Discurso ao permitir explorar de muitas maneiras a relação trabalhada com o simbólico, sem apagar as diferenças, significando-as teoricamente, no jogo que se estabelece na distinção entre o dispositivo teórico da interpretação e os dispositivos analíticos que lhe correspondem.

DISPOSITIVO DE INTERPRETAÇÃO
As condições de produção compreendem fundamentalmente os sujeitos e a situação, a memória também faz parte da produção de discurso. A maneira como a memória “aciona”, faz valer, as condições de produção.
A memória por sua vez, tem suas características, quando pensada em relação ao discurso. E nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso, ou seja, memória discursiva. A constituição determina a formulação, pois só podemos dizer (formular) se nos colocamos na perspectiva do dizível (interdiscurso, memória). O interdiscurso é todo o conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determina o que dizemos, ou seja, para que as palavras tenham sentido é preciso que elas já façam sentido. E isso é efeito do interdiscurso: é preciso que o que foi dito por um sujeito específico, em um momento particular se apague na memória para que, passando para o “anonimato”possa fazer sentido. Se tanto o interdiscurso como o intertexto mobiliza o que chamamos relações de sentido, o interdiscurso é da ordem do saber discursivo, memória afetada pelo esquecimento, ao longo do dizer, enquanto o intertexto restringe-se à relação de um texto com outros textos. Nessa relação, a intertextual, o esquecimento não é estruturante, como o é para o interdiscurso.
ESQUECIMENTOS
Segundo M. Pêcheus (1975), podemos distinguir duas formas de esquecimento no discurso que são chamados de esquecimento ideológico e o esquecimento da enunciação.
O esquecimento ideológico é da instância do inconsciente e resulta do modo pelo qual somos afetados pela ideologia. Por esse esquecimento temos a ilusão de ser a origem do que dizemos quando, na realidade, remontamos sentidos preexistentes. Esse esquecimento reflete o sonho adâmico: o de estar na inicial absoluta da linguagem, ser o primeiro homem, dizendo as primeiras palavras que significariam apenas e exatamente o que queremos, o esquecimento da enunciação produz a impressão da realidade do pensamento a qual é denominada ilusão referencial que faz acreditar que há uma relação direta entre o pensamento, a linguagem, o mundo de tal modo que pensamos que o que dizemos só pode ser dito com aquelas palavras e não outras.
Quando nascemos os discursos já estão em processo e nós é que estamos nesse processo apenas materializando-os sendo essa uma determinação necessária para que haja sentidos e sujeitos, por esse motivo é que dizemos que o esquecimento é estruturante. Ele é parte dos sujeitos e dos sentidos.

PARÁFRASE E POLISSEMIA
Duas forças que trabalham continuamente o dizer de tal modo que todo discurso se faz numa tensão são a paráfrase e a polissemia, e é num jogo entre essas forças que, entre o mesmo e o diferente, entre o já dito e o a se dizer que os sujeitos se movimentam, fazem seus percursos, (se) significam. Se o real e a língua não fosse sujeito à falha e o real da história não fosse passível de ruptura não haveria transformação, não haveria movimento possível, nem dos sujeitos nem dos sentidos. É desse modo que distinguimos na análise de discurso a criatividade da produtividade. A criação em sua dimensão técnica é produtividade, reiteração de processos já cristalizados. Processos parafrásicos são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível a memória.


RELAÇÕES DE FORÇA, RELAÇÕES DE SENTIDO, ANTECIPAÇÃO: FORMAÇÕES IMAGINÁRIAS.
As condições de produção que constituem os discursos funcionam de acordo com certos fatores. Um deles é o que chamamos de relações de sentido onde os sentidos resultam de relações: um discurso aponta para outros que ostentam assim como para dizeres futuros. Todo discurso é visto como um estado de um processo discursivo mais amplo, contínuo, um dizer tem relação com outros dizeres realizados, imaginados ou possíveis. Relação de força é o lugar de partida pelo qual o sujeito é constitutivo do que ele diz, se o sujeito fala a partir do lugar do professor, suas palavras significam do modo diferente do que se falasse do lugar do aluno. O padre fala de um lugar em que suas palavras têm uma autoridade determinada junto aos fiéis etc. Como nossa sociedade é constituída por relações hierarquizadas são relações de força, sustentadas no poder desses diferentes lugares, que se fazem valer na comunicação.
Nas relações discursivas são as imagens que constituem as diferentes posições. Isto se faz de tal modo que o que funciona no discurso não é o operário visto empiricamente, mas o operário enquanto posição discursiva produzida pelas formações imaginárias. O imaginário faz necessariamente parte do funcionamento da linguagem, é eficaz, não brota do nada: assenta-se no modo como as relações sociais, se inscrevem na história e são regidas em uma sociedade como a nossa, por relações de poder.

FORMAÇÃO DISCURSIVA
A noção de formação discursiva é básica na Análise de Discurso, pois permite compreender o processo de produção dos sentidos, a sua relação com a ideologia e também dá ao analista a possibilidade estabelecer regularidades no funcionamento do discurso.
A formação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica dada - ou seja, a partir de uma posição dada – determina o que pode e o que deve ser dito. O discurso se constitui em seus sentidos porque aquilo que o sujeito diz se inscreve em uma formação discursiva e não outra para ter um sentido e não outro, a palavra é sempre parte de um discurso e todo discurso se delineia na relação com outros: dizeres presentes e dizeres que se alojam na memória. As formações discursivas podem ser vista como regionalizações do interdiscurso, configurações específicas dos discursos em suas relações. O interdiscurso disponibiliza dizeres determinando, pelo já dito aquilo que constitui uma formação discursiva em relação a outras, é afirmar essa articulação de formação discursivas denominadas pelo interdiscurso em sua objetividade contraditória.
A metáfora é imprescindível na análise de discurso na qual ela representa basicamente transferência, estabelecendo o modo como as palavras significam.

IDEOLOGIA E SUJEITO
Um dos pontos fortes da Análise de Discurso é re-significar a noção de ideologia a partir da consideração da linguagem, trata-se de uma definição discursiva de ideologia. O fato de que não há sentido sem interpretação, atesta a presença da ideologia, ou seja, não há sentido sem interpretação e, além disso, diante de qualquer objeto simbólico o homem é levado a interpretar. O trabalho da ideologia é produzir evidências colocando o homem na relação imaginária com suas condições materiais de existência, a ideologia é condição para a constituição do sujeito e dos sentidos. O indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia para que se produza o dizer. A evidência dos sentidos a que faz com que uma coisa apaga o seu caráter material, faz ver como transparente aquilo que se constitui pela remissão a um conjunto de formações discursivas que funcionam com uma dominante. As palavras recebem seus sentidos de formações discursivas em suas relações. Este é o efeito da determinação do interdiscurso (da memória).
A evidência do sujeito apaga o fato de que o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia. Esse é o paradoxo pelo qual o sujeito é chamado à existência: sua interpretação pela ideologia. São essas evidencias que dão aos sujeitos a realidade como sistema de significação, percebidas, experimentadas. Essas evidências funcionam pelos chamados esquecimentos, isso se dá de tal modo que a subordinação - assujeitamento se realiza sob a forma da autonomia, como um interior sem exterior, esfumaçando-se a determinação do real do interdiscurso, pelo modo como ele funciona. O trabalho ideológico é um trabalho de memória e do esquecimento, pois, é só quando passa para o anonimato que o dizer produz seu efeito de literalidade. O dizer tem história, os sentidos não se esgotam no imediato. Tanto é assim que fazem efeitos diferentes para diferentes interlocutores. Não temos controle sobre isso.

O SUJEITO E SUA FORMA HISTÓRICA
A forma-sujeito histórica que corresponde à sociedade atual apresenta bem a contradição: é um sujeito ao mesmo tempo livre e submisso. Ele é capaz de uma liberdade sem limites e uma submissão sem falhas: pode tudo dizer contanto que se submeta à língua para sabe-la. Essa é a base que chamamos assujeitamento. Através da noção de determinação, o sujeito gramatical cria um ideal de completude, participando do imaginário de um sujeito mestre de suas palavras, ou seja, ele determina o que diz em determinados casos o assujeitamento se faz do modo a que o discurso apareça como instrumento (límpido) do pensamento e um reflexo justo da realidade. O sentido literal na concepção lingüística imanente é aquele que uma palavra tem independentemente de seu uso em qualquer contexto. Daí seu caráter básico, discreto, inerente, abstrato e geral. A literalidade é uma construção que o analista deve considerar em relação ao processo discursivo com suas condições.

INCOMPLETUDE: MOVIMENTO, DESLOCAMENTO E RUPTURA A condição da linguagem é a incompletude. Nem sujeitos nem sentidos estão completos, já feitos, constituídos definitivamente. Constituem-se e funcionam sob o modo do entremeio, da relação, da falta, do movimento. Essa incompletude atesta a abertura do simbólico, pois a falta é também lugar do possível.
No processo de incompletude significa que trabalhamos continuamente a articulação entre estrutura e acontecimento: nem o exatamente fixado, nem liberdade em ato. Sujeitos, ao mesmo tempo, à língua e a história, ao estabilizado e ao irrealizado, os homens e os sentidos fazem seus percursos, mantém a linha, se detém junto às margens, ultrapassam limites, transbordam, refluem. No discurso, no movimento do simbólico, que não se fecha e que tem na língua e na história sua materialidade, ou seja, a forma encarnada, não abstrata nem empírica, onde não se separa forma e conteúdo: forma lingüístico-histórica, significativa. A linguagem não é transparente os sentidos não são conteúdos. É no corpo a corpo com a linguagem que o sujeito (se) diz. Pela natureza incompleta do sujeito, dos sentidos, da linguagem (do simbólico), ainda que todo sentido se filie a uma rede de constituição, ele pode ser um deslocamento nessa rede. Entretanto, há também injunções à estabilização, bloqueando o movimento significante. Nesse caso o sujeito não se desloca e o sentido não flui. Ao invés de se fazer um lugar para fazer sentido ele é pego pelos lugares (dizeres) já estabelecidos, num imaginário em que sua memória não reverbera. Estaciona. Só repete por intermédio de processos de identificação rígido pelo imaginário e esvaziados de sua historicidade em suas evidências ideológicas.

III – DISPOSITIVO DE ANÁLISE
O Lugar da Interpretação
A Análise de Discurso não procura o sentido verdadeiro, mas, o real do sentido em sua materialidade lingüística e histórica. A ideologia não se aprende, o inconsciente não se controla com o saber. A própria língua funciona ideologicamente tendo em sua materialidade esse jogo. As transferências presentes no processo de identificação dos sujeitos constituem uma pluralidade contraditória de filiação histórica. Uma mesma palavra, uma mesma língua, significa diferentemente, dependendo da posição do sujeito e da inscrição do que diz em uma ou outra formação discursiva. O dispositivo, a escuta discursiva, deve explicitar os gestos de interpretação que se ligam aos processos de identificação dos sujeitos, suas filiações de sentidos: descrever a relação do sujeito com sua memória. Nessa empreitada, descrição e interpretação se inter-relacionam. E é também tarefa do analista distingui-las em seu propósito de compreensão e o que se espera do dispositivo analista é que ela se permita trabalhar não numa posição, mas, que seja relativizada em face da interpretação: é preciso que ele atravesse o efeito da transparência da linguagem, da liberdade dos sentidos e da onipotência do sujeito. Esse dispositivo vai assim investir na capacidade da linguagem, no descentramento do sujeito e no efeito metafórico, no equívoco, na falha e na materialidade, no trabalho da ideologia. A construção desse dispositivo resulta na alteração da posição do leitor para o lugar construído pelo analista, lugar em que se mostra a alteridade do cientista, a leitura outra que ele pode produzir no qual ele se coloca em uma posição deslocada que lhe permite contemplar o processo de produção de sentidos em suas condições. Tendo isso em conta ele constrói finalmente seu dispositivo analítico que ele particulariza a partir da posição que ele coloca face aos materiais de análises que constituem seu corpus e que ele visa compreender, em função do domínio científico a que ele vincula seu trabalho e para isso é preciso que ele compreenda como o discurso se textualiza.
Recortar e analisar estados diferentes. Considera-se que a melhor maneira para atender a questão da constituição do corpus é construir montagens discursivas que obedeçam critérios que decorrem de princípios teóricos da análise de discurso, face aos objetivos da análise, e que permitam chegar a sua compreensão. Esses objetivos em consonância com o método e os procedimentos não visa a demonstração, mas, a mostrar como um discurso funciona produzindo efeitos de sentidos.
Uma vez analisado o objeto permanece para novas e novas abordagens. Ele não se esgota em uma descrição, por isso, o dispositivo analítico pode ser diferente nas diferentes tomadas que fazemos do corpus, relativamente à questão posta pelo analista em seus objetivos, isto conduz a resultados diferentes.

UMA QUESTÃO DE MÉTODO
Há uma passagem fundamental que é a questão entre a superfície lingüística (o material da linguagem em bruto coletado, tal como existe) e o objeto discursivo, este sendo definido pelo fato de que o corpus já recebeu um primeiro tratamento de análise superficial, feito em uma primeira instância, pelo analista, e já se encontra de-superficializado, que é o chamamos de materialidade lingüística, isto é, naquilo que se mostra em sua sintaxe e enquanto processo de enunciação (em que o sujeito se marca no que diz), fornecendo-nos pistas para compreendermos o modo como discurso que pesquisamos se textualiza.
O objeto discursivo a ser pesquisado supõe um trabalho do analista, e para se chegar a ele é preciso numa primeira etapa da análise, converter a superfície lingüística (o corpus bruto), o dado empírico de um discurso concreto, em um objeto teórico, um objeto lingüisticamente de-superficializado, produzido por uma primeira abordagem analítica que trata criticamente a impressão da “realidade” do pensamento, da ilusão que sobrepõe palavras, idéias e coisas, em determinados textos inicia-se o trabalho de análise pela configuração do corpus retomando-se conceitos e noções, pois, a análise de discurso tem um procedimento que demanda ir e vir constantemente entre teoria, consulta ao corpus e análise, e esses procedimentos dão-se ao longo de todo o trabalho.

TEXTUALIDADE E DISCURSIVIDADE
O texto, referido á discursividade, é o vestígio mais importante dessa materialidade, funcionando como unidade de análise, unidade que se estabelece pela historicidade como unidade de sentido em relação á situação. Ser escrito ou oral, não muda a definição do texto. Como a materialidade conta, certamente um texto escrito e um oral significam de modo específico particular as suas propriedades materiais. Mas ambos são textos.
Se o texto é unidade de análise, só pode sê-lo porque representa uma contrapartida à unidade teórica, o discurso, definido como efeito de sentidos entre locutores. Para a análise de discurso o que interessa é como o texto organiza a relação da língua com a história no trabalho significante do sujeito em sua relação com o mundo. É dessa natureza sua unidade: lingüístico-histórica, já o discurso é uma dispersão de textos e o texto é uma dispersão do sujeito, o sujeito se subjetiva de maneiras diferentes ao longo de um texto. A mediação de um dispositivo analítica, da teoria e dos objetivos do analista dá ao texto seu estatuto como unidade da análise.

AUTOR E SUJEITO: O imaginário e o real
A relação autor e sujeito esta definida da seguinte forma: o sujeito está para o discurso assim como o autor está para o texto e o autor possui a função discursiva do sujeito. O autor é considerado como princípio de agrupamento do discurso, com unidade e origem de suas significações, como fulcro de sua coerência .
Não basta falar para ser autor, assunção da autoria implica uma inserção do sujeito na cultura, uma posição dele no contexto histórico-social. Aprender a se representar como autor, é assumir diante das instancias institucionais, esse papel social na sua relação com a linguagem: constituir-se e mostrar-se autor
O sujeito precisa passar da multiplicidade de representações possíveis para a organização dessa dispersão num todo coerente, apresentando-se como autor, responsável pela unidade e coerência do que diz. Essa representação do sujeito tem seu pólo correspondente que é o leitor.

A ANÁLISE: DIPOSITIVO E PROCEDIMENTOS
Os procedimentos da Análise de Discurso têm a noção de funcionamento como central, levando o analista a compreende-lo pela observação dos processos e mecanismos da constituição de sentidos e de sujeitos, lançando mão da paráfrase e da metáfora como elementos que permite um certo grau de operacionalização dos conceitos.
Na primeira etapa, o analista, no contato com o texto, procura ver nele sua discursividade e incidindo em primeiro lance de análise em de natureza lingüístico enunciativa, constrói um objeto discursivo em que já esta considerado o esquecimento número dois(da estância da enunciação), fazendo assim a ilusão de que aquilo que foi dito só poderá sê-lo daquela maneira. Desnaturaliza-se a relação palavra-coisa, na segunda etapa, a partir do objeto discursivo. o analista vai incidir uma análise que procura relacionar as formações discursivas distintas que pode ter-se delineado no jogo de sentidos observado pela análise do processo de significação(paráfrase, sinonímia etc.). ao longo de todo procedimento analítico, ao lado do mecanismo parafrásico cabe ao analista observar o que chamamos de efeitos metafóricos.

TIPOLOGIAS E RELAÇÕES ENTRE DISCURSOS
São muitos os critérios pelos quais se constituem tipologias na análise de discurso, uma das mais comuns é a que reflete as distinções constitucionais e suas normas. Temos então o discurso político, o jurídico, o religioso, o jornalístico, o pedagógico, o médico, o científico. Com suas variáveis: o terapêutico, o místico, o didático etc. também as diferenças das disciplinas podem estar na base de tipologias: o discurso histórico, sociólogo, antropólogo, biológico, o da física etc. Há ainda diferenças relativas entre estilos (barroco, renascentista etc), a gêneros (narrativa, descrição, dissertação), a subdivisões no interior dos já categorizados(em relação ao político, neo-liberal,marxista etc.) e assim por diante.
O que interessa primordialmente ao analista são as prioridades internas ao processo discursivo: condições, remissão a formação discursiva, modo de funcionamento observando-se e sem dar nenhuma prioridade a determinados tipos de discursos tais como: autoritário, lúdico ou polêmico de modo que é sabido que não há um discurso puramente autoritário, o que há são misturas, articulações de modo que podemos dizer que o discurso tem um funcionamento autoritário, ou tende para o autoritário (para paráfrases) etc. Um modo de se evitarem essas categorizações é dizer em relação aos modos de funcionamento discursivo que o discurso em análise tende para a paráfrase, ou para polissemia (quando lúdico) e se divide entre polissemia e paráfrase (quando polêmico).

MARCAS PROPRIEDADES E CARACTERÍSTICAS:
O formal, o discursivo e o conteudista.
Ao olhar os textos o analista defronta-se com a necessidade de reconhecer, em sua materialidade discursiva, os indícios (vestígios, pistas) dos processos de significação aí inscritos, no entanto para praticar a análise de discurso e não a análise lingüística ou a análise de conteúdo, ele precisa ter em conta algumas distinções teóricas e metodológicas. Como a Análise de Discurso se constitui na relação de pressuposição com a Lingüística e numa proximidade com as ciências sociais, ela também tem de mostrar os meios pelos quais se demarca delas em sua prática analítica. Diferencia-se da Lingüística porque não trabalha com as marcas (normais),mas, com propriedades discursivas (materiais que referem a língua à história, para significar relação língua-exterioridade). Por outro lado, à diferença de Análise de Conteúdo instrumento tradicional de análise de textos das Ciências Sociais.

ENUNCIAÇÃO, PRAGMÁTICA, ARGUMENTAÇÃO, DISCURSO: Há uma aproximação e um trânsito constante entre esses campos de conhecimento. O que eles tem em comum é que os fatos da linguagem por eles tratados referem a linguagem ao seu exterior. A pragmática tem sido considerada de modo mais amplo muitas vezes incluindo a enunciação, a argumentação e o discurso. Do ponto de vista do fato em comum na medida em que todos esses campos, pelo modo como consideram a linguagem, distingue-se de uma abordagem lingüística imanente. No entanto há diferenças bastante nítidas entre eles. a maneira como concebem o sujeito(na enunciação, o sujeito é um sujeito origem de si; na argumentação o sujeito é o sujeito psico-social e na Análise de Discurso o sujeito é lingüístico-histórico constituído pelo esquecimento e pela ideologia ) e o modo como define o exterior(na pragmática o exterior é o fora e não o interdiscurso) marcam as diferenças teóricas, de distintos procedimentos analíticos, com suas conseqüências práticas e diversificadas.


Fonte:
http://66.228.120.252/resenhasdelivros/2232674